Hoje se comemora, aqui na Espanha, o “Dia das Mães”. No Brasil, elas ainda têm que esperar uma semana, pelo seu “Dia”, pelas homenagens que, em verdade, lhes deveriam ser feitas à cada dia do ano. De qualquer modo, é bonito que tenham um dia especialmente dedicado a elas. 

Aprendi, apenas criança, a compreender o extraordinário valor dessa criatura que, na Natureza, se encarrega de aninhar-nos em seu útero, em demonstração extrema de afeto, de amor, de instinto de proteção do filhote que prepara para entregar ao mundo, com suas belezas e alegrias mas, também, com seus perigos e tristezas. 

Aprendi da forma mais eficaz, como quem aprende o valor do abrigo quando não o tem, no inverno. Aprendi, com a prematura ausência física de minha Mãe, com a falta que me fez e às suas outras nove crias, a riqueza imensurável que ela representa, em nossas vidas. Aprendi, observando a relação das Mães de meus amigos com eles e com o carinho que também a mim dedicavam, sobre o tesouro que havia perdido. 

Quando partiu, entretanto, deixou-me, minha Mãe, alguém que se ocuparia de tentar substituí-la durante muitos anos, na tarefa de ver-me crescer, de zelar pela minha formação, de cuidar que eu sobrevivesse à sua ausência. Essa pessoa transformou-se, por óbvio, na fortuna maior de minha vida e a de meus irmãos e irmãs. 

De forma em tudo heróica, teve essa criatura que cumprir não só os deveres que já lhe cabiam mas também os que assumiu, sem que assim escolhesse. Teve que superar muitas vezes a si mesmo, de lutar contra suas limitações para cumprir, quem sabe, compromisso assumido no silêncio de sua alma com aquela que fora a paixão de sua vida. 

Essa criatura era meu Pai, que também foi obrigado a me deixar, não sem antes ver a mim e a todos os seus filhos criados e senhores de suas próprias vidas. Pelo que Ele foi, fez e representará para sempre, por seu esforço sobre humano em ajudar seus filhos a superar a dor e o vazio deixado em nossos corações com a ausência de nossa Mãe, eu lembro também dele, hoje, que é o Dia das Mães. Ele, que foi meu Pai, foi também minha Mãe.

(Barcelona, 1 de maio de 2005) 

 

Assim como o exercício físico é indispensável para a saúde do corpo, pensar e sentir são da mesma forma importantes para a saúde da mente e do espírito. 

Devemos indagar sempre, a cada instante, buscando respostas aos pequenos e grandes segredos da Vida. O conhecimento das razões, das causas, não somente nos ajudará a percorrer o caminho da existência, iluminando as sendas por que devemos passar, como também nos dará força e disposição para a caminhada. 

O exercício de sentir, por sua parte, torna mais ágil o espírito, fazendo-o responder com maior intensidade e rapidez às exigências do existir. A qualidade espiritual de cada um é medida, assim, pela capacidade de pensar e sentir. 

Nada é ofertado de graça mas sim em resposta a algum esforço despendido. Alguém que permaneça parado, sem se mover, não poderá pretender alcançar seu objetivo, mais adiante. O aprendizado, nos ensina a Vida, depende ainda – muitas vezes – da repetição do exercício, tantas vezes quantas necessárias para que o conhecimento se incorpore à nossa mente. 

Igualmente, devemos exercitar-nos na Arte de Sentir, repetindo, no dia à dia, as lições que pretendemos aprender, apreender, incorporar ao nosso espírito. Não devemos deixar ao acaso a tarefa que exige compromisso, atenção permanente. Tal deve ser nossa postura frente à extraordinária potencialidade da alma: aprender, aprimorar-se, evoluir. 

Assim como se busca a academia de ginástica para a cultura do corpo e a escola para o desenvolvimento mental, deve-se buscar, no trato dos sentimentos, o aperfeiçoamento do espírito. 

(Barcelona, 17 de abril de 2005)